Quando Lobão critica o heavy metal, ele não está implicando apenas com o volume, a distorção ou a estética do excesso. Sua crítica é mais funda e, justamente por isso, incômoda: trata-se da percepção de que a rebeldia, ali, já não é um gesto, mas uma forma estabilizada, gênero fechado sobre si mesmo, previsível, domesticado. O heavy metal radicaliza traços do rock clássico, peso, agressividade, virilidade simbólica, mas o faz por meio de uma hiperformalização que neutraliza o risco. A fúria vira técnica, o excesso se torna competência, transgressão se transforma em figurino. O que antes era instável, atravessado por política, erro, ambiguidade e desejo, passa a operar como identidade reconhecível, repetível, ensinável. Lobão acerta porque identifica que, nesse ponto, o rock deixa de ameaçar a ordem simbólica e passa a reforçá-la, oferecendo uma catarse controlada. O sujeito sente que rompe, mas permanece rigorosamente dentro do circuito do consumo cultural. É um grito domesticado, violência que não desorganiza nada fora do palco. O heavy metal preserva os signos do rock rebelde, mas os esvazia de potência histórica, convertendo-os em estilo, nicho, mercado. Rebeldia sem perigo. Transgressão sem consequência.
Essa crítica atravessa toda a história posterior do rock e ilumina também o surgimento do punk entre 1976 e 1979. O punk foi explosivo, sem dúvida, mas como reação. Ele nasce contra o virtuosismo, espetáculo, rock institucionalizado, mas já dentro de um sistema plenamente consciente de sua capacidade de absorver a negação. O punk rasga, grita, simplifica, mas rapidamente vira estética, uniforme, logotipo. A partir dos anos 80, mesmo quando o rock se apresenta como politizado, agressivo ou barulhento, ele já não opera no nível estrutural da ruptura. Ele denuncia, mas não desloca; encena a crítica, mas não reorganiza as relações entre arte, poder e mercado. É aqui que a noção de dessublimação repressiva, formulada por Herbert Marcuse, se torna decisiva: o sistema não reprime a rebeldia, mas a libera de forma funcional, lucrativa e inofensiva. Pode-se odiar o mundo desde que se compre o disco, a camiseta, o ingresso. Lobão tem razão porque percebe que, a partir desse ponto, o rock já não funda possibilidades históricas novas; ele passa a administrar o descontentamento.
É justamente por isso que o contraste com o período entre 1965 e 1967 se torna tão violento. Ali, algo se rompe no interior do rock que não pode ser explicado como simples evolução musical. Quando Bob Dylan sobe ao palco do Newport Folk Festival com guitarras elétricas, o escândalo não nasce do volume, mas da violação de um pacto moral. O folk funcionava como consciência ética da esquerda americana: acústico, coletivo, supostamente puro, politicamente legível. Dylan rompe esse pacto de modo quase cruel. Ele não troca apenas instrumentos; muda de posição subjetiva. Afirma que o artista não deve fidelidade a nenhuma comunidade moral, nem mesmo àquela que o consagrou. Aqui, o rock descobre algo que Lobão sabe muito bem identificar depois: a autonomia artística como gesto político em si. A canção deixa de ser veículo transparente de uma causa e se torna espaço opaco, ambíguo, atravessado por desejo, contradição, narcisismo e ironia. O rock abandona a função pedagógica e assume uma função existencial: não ensinar como viver, mas expor o mal-estar de estar vivo.
Ao mesmo tempo, os Beatles realizam um movimento complementar e ainda mais radical, embora menos ruidoso. Ao abandonar o formato da canção romântica simples e a lógica da performance ao vivo como centro da experiência musical, o grupo transforma o estúdio em laboratório e a música em linguagem. Entre Rubber Soul, Revolver e Sgt. Pepper’s, o rock se infiltra na literatura, psicanálise, drogas, política, experimentalismo sonoro e na fragmentação do eu. Não se trata mais de cantar para alguém, mas de explorar estados de consciência, colagens, vozes internas, personagens instáveis. A canção deixa de ser confissão juvenil e se torna construção simbólica complexa, muitas vezes desconfortável. É esse gesto que Lobão reconhece como perdido: o rock que não pede permissão, legitimação e não se organiza como gênero fechado, mas como campo de tensão permanente.
Entre 1967 e 1969, esse gesto atinge seu ápice utópico e político. O rock deixa de apenas refletir o mundo e passa a intervir nele, como se a música tivesse assumido uma função histórica direta. Guerra do Vietnã, assassinatos políticos, direitos civis, Maio de 68: a realidade se torna intolerável demais para ser apenas comentada. O som se expande, distorce e torna-se excessivo porque o excesso é político. Quando Jimi Hendrix executa o hino americano como um campo de batalha sonoro, ele não parodia; ele faz uma autópsia simbólica do patriotismo. O rock não propõe programas nem reformas: ele desnuda a violência estrutural do presente. The Doors, por sua vez, levam essa radicalidade ao campo da moral e do desejo. Jim Morrison não canta, encena o colapso da racionalidade burguesa e da separação entre arte e vida. Woodstock, nesse contexto, não é um festival, mas um ensaio precário de outra forma de existência. É o momento em que o rock acredita que pode mudar o mundo porque parece já estar mudando a maneira de habitá-lo.
O desgaste vem logo depois. Entre 1969 e 1972, o sonho racha por implosão interna. Mortes precoces, violência, exaustão física e psíquica revelam o custo da intensidade. Altamont surge como anti-Woodstock: caos, agressividade, morte diante do palco. A indústria acelera a mercantilização da rebeldia, transforma experiência em produto, risco em cálculo. Os Rolling Stones abandonam qualquer ilusão de pureza e flertam com o cinismo, ambiguidade moral, consciência de que não há inocência possível. O rock continua crítico, mas já sabe que é também cúmplice do sistema que denuncia. Pink Floyd levam essa lucidez ao extremo ao transformar a alienação em forma, arquitetura sonora. A música não promete libertação; ela faz o ouvinte habitar o confinamento, repetição, esgotamento.
É exatamente aí que a crítica de Lobão se fecha como diagnóstico histórico. O rock, depois disso, não desaparece, mas perde sua capacidade fundadora. O que vem depois, heavy metal, punk institucionalizado, rock politizado dos anos 80 que já nasce sob a sombra dessa ruptura inicial, tentando repetir, administrar ou simular um gesto que só foi verdadeiramente perigoso quando ainda não sabia que estava fazendo história. Lobão tem razão porque entende que o rock deixou de ser um evento e se tornou um serviço. E, quando a rebeldia vira serviço, ela já não ameaça nada além do silêncio.
Dr. Wellington Lima Amorim, professor de Filosofia, não do tipo que fala baixo e pede silêncio. Trabalho onde o pensamento ainda queima: filosofia, estética, política, clínica, linguagem e cultura. Escrevo como quem desmonta relógios para entender o tempo, artigos, livros, ensaios e textos que circulam entre o rigor acadêmico e a indisciplina literária. Tenho especial interesse por ética trágica, crítica da normatividade, política dos afetos e tudo aquilo que insiste em não caber direito nas instituições. Se a filosofia serve para alguma coisa, é para desorganizar certezas bem arrumadas. É isso que faço.