
Nathan Fronza não está pedindo licença. Em “A Última Sombra”, o músico assume o microfone e transforma o rock em manifesto sonoro, cruzando peso, espiritualidade e crítica social em uma faixa que soa como um alerta — e também como um rito de passagem.
Lançado em 30 de janeiro, o single marca um novo capítulo na trajetória de Fronza, agora não apenas como guitarrista reconhecido, mas como compositor e intérprete à frente da própria narrativa. A canção mistura rock cru e visceral com referências à cultura dos povos originários do Brasil, criando uma atmosfera ritualística, combativa e urgente.

“O fogo aparece como símbolo de transformação, mas também como denúncia”, explica Nathan. A música aborda diretamente o colapso climático, as queimadas, o céu cinza que virou rotina e a necessidade de assumir uma postura ativa diante da destruição. A estrutura da faixa acompanha essa ideia: começa como um grito de guerra e desemboca em um solo que representa “o confronto entre oprimido e opressor”.
A semente de “A Última Sombra” nasceu ainda em 2020, logo após Nathan participar de um ritual xamânico, em plena virada do mundo com o início da pandemia. A introdução ficou guardada por anos, até ganhar novo significado em 2024, quando as queimadas deixaram o céu encoberto por semanas em várias regiões do país. “Foi ali que entendi que precisava transformar aquela ideia em uma música completa, falando diretamente do que estamos vivendo.”
A letra carrega múltiplas camadas. Em uma leitura direta, é revolta pura contra um sistema que transforma tudo em mercadoria — até o céu. “Quando pensei na frase ‘venderam o céu e ninguém vai me pagar’, veio dessa sensação de sufocamento físico e simbólico”, conta. Versos como “destruíram minha voz, nem consigo gritar” traduzem a impotência coletiva, enquanto o sarcasmo amargo escancara um mundo que desmorona sem respostas.
Em um plano mais interno, a música também fala de enfrentar as próprias sombras. O fogo, mais uma vez, surge como elemento central: aquilo que queima, dói e transforma, deixando só o essencial. “Quando digo ‘não resta mais nada além desta sombra’, também estou falando desse processo interno”, explica o artista.
O single chega acompanhado de clipe oficial, dirigido por Leonardo Soares e Yuri Naoto, lançado no mesmo dia. O vídeo constrói uma narrativa entre dois mundos: o Nathan rock’n’roll do presente e uma versão que habita um cenário pós-apocalíptico, devastado pelo fogo e pelo modelo de exploração. Os dois personagens se cruzam ao longo da história, criando um diálogo visual forte e simbólico. O processo foi intenso — a primeira gravação foi perdida —, mas a persistência falou mais alto. “Chegamos ao limite da exaustão, mas o resultado valeu cada segundo.”
Com mais de 20 anos de estrada, Nathan Fronza já passou por dezenas de bandas e projetos, realizou mais de 150 shows por ano no Brasil e no exterior, atuou em orquestras, programas de TV e produções em estúdio. Agora, o foco é total no trabalho autoral, assumindo a direção artística e os vocais das próprias canções.
A relação com a música vem de berço. Filho de músicos, Nathan encontrou na guitarra, aos 13 anos, a forma de dar cor a um mundo que antes parecia preto e branco. Sua formação no Conservatório de Tatuí e as referências que vão de Hendrix, Led Zeppelin e Black Sabbath a Milton Nascimento, Hermeto Pascoal e John Coltrane ajudam a entender a densidade e a liberdade criativa do seu som.
“A Última Sombra” é diferente de tudo que Nathan já fez. Não é só uma música. É posicionamento artístico, político e espiritual. Um grito que ecoa em meio às cinzas — chamando quem ouve para olhar de frente, resistir e transformar.
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